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Pela primeira vez, na Itália, um guei católico praticante falou durante a homilia da Missa de Natal de 2003 em uma Igreja Católica, pregando a aceitação dos homossexuais.
di Pasquale Quaranta, Estou feliz assim, 25 dicembre 2003
Pela primeira vez, na Itália, um guei católico praticante falou durante a homilia da Missa de Natal de 2003 em uma Igreja Católica, pregando a aceitação dos homossexuais. Trata-se de Pasquale Quaranta, jovem de 20 anos de Battipaglia, que já havia escrito seu depoimento para o site Estou Feliz Assim. Atuante nos meios culturais homossexuais italianos, ele foi convidado pelo padre Don Fabrizio Longhi da cidadezinha de Rignano Garganico, na província de Foggia, a participar da cerimônia. Em seguida, o fato gerou repercussão na imprensa de seu país, com artigos no Corriere della Sera, la Repubblica, l’Unità, etc.
Vim de Salerno para falar-lhes nesta Igreja, de homossexualidade. Sou guei e tenho fé religiosa.
[Rumores de vozes]
Não, não assustem! Ouçam…
Dizia, sou guei e tenho fé religiosa e a razão pela qual estou aqui esta noite é porque creio que um testemunho possa fazer-lhes refletir sobre uma realidade com a qual cada um de vocês, muito provavelmente, não teve ainda a oportunidade de deparar-se nos termos em que falarei. Ou seja de alegria, de amor, de serenidade, de transparência.
A homossexualidade não é doença, não é perversidade, nem transgressão, nem moda e – a coisa que acho importante frisar agora – não é pecado!
Trata-se de um dom de Deus que, enquanto tal, não é escolha e com o qual temos que viver. A fé, igualmente, é um sentimento que descobrimos e cultivamos dentro de nós, uma “orientação” a qual somos chamados, do mesmo modo, a viver. Gueis e lésbicas têm o direito de viver plenamente a própria vida, também no plano afetivo e sexual, tanto quanto uma pessoa heterossexual. Quem pede a abstinência e a “vende” como exigência de castidade não entendeu o dom do amor.
Às vezes nos perguntamos: qual é a minha posição em relação a uma pessoa homossexual? Qual seria a minha reação se meu filho ou minha filha me revelasse a sua homossexualidade?
Estou seguro que as respostas fariam emergir o preconceito milenar que uma tradição histórica, mesmo aquela católica, arraigou nas consciências.
Eu lhes digo: “Liberamo-nos dela!”
“Muitas pessoas ainda permitem que a sua paz dependa da opinião da hierarquia, como se esta fosse “a Igreja” ou mesmo o eco ou a interprete da voz de Deus. A Igreja é uma realidade mais viva e variada na qual o espírito de Deus suscita vozes e experiências diversas”.
Existem milhares de pessoas que, nestas horas, sofrem a solidão em razão de uma orientação que é condenada como imoral, intrinsecamente má, abominável. Prestem atenção, solidão não significa simplesmente “estar só”. Quer dizer também estar junto a outras pessoas mas “sentir-se só”, não completamente compreendido.
Existe quem se matou porque não conseguia aceitar a própria homossexualidade por motivos confessionais mal interpretados e pela hostilidade da sociedade ou da família.
Parece ressoar nesta noite, una noite santa porque o filho de Deus veio ao mundo, no frio de uma pobre gruta, fora da cidade dos homens, aquilo que a introdução ao Evangelho de João diz: “Veio ente a sua gente, mas os seus não o acolheram…”. Quantos dos nossos irmãos e irmãs, amigos e amigas, gays e lésbicas (estas palavras são ainda hoje impregnadas de desprezo e escândalo) não foram acolhidos? Quantos vieram em sua família humana e não encontraram lugar?
É o destino daqueles que Jesus ama mais que todos, aqueles os quais se acham na mesma situação na qual Ele se encontrou, entre os homens e mulheres do seu tempo: nos conta esta noite o evangelho de Lucas: “A Virgem deu a luz à criança, a envolveu em faixas e a colocou em uma manjedoura (...) porque não havia lugar para eles no albergue”. Na havia lugar, como hoje, para muitos não há lugar, não há nas nossas casas para ele e para tantos irmãos que são homossexuais, não há lugar no coração para acolher e a própria Igreja, a comunidade dos fiéis, parece que se tornou aquele albergue, onde não há lugar.
É possível segundo vocês que Deus possa ser feliz com isto? Deus não faz “peças defeituosas” e somos todos seus filhos! Cada um tem direito de ser aquilo que é e de estar aqui tanto quanto as árvores e as estrelas.
O maior dom que podem fazer, a partir deste Natal em diante, será o de abraçar o rapaz guei, a moça lésbica que lhes está próxima, seja ele(a), seu filho(a), seu irmão(ã) ou prima, um seu parente.
Demonstre-lhes o seu amor. É necessário. Deus sorrirá disto, estejam certos!
“Era forasteiro…”, ou seja era estrangeiro, diferente, da diversidade que nos incomoda, em base a qual nós atribuímos aos outros alguma coisa de inadequado ou de errado e – disse Cristo – “vós me acolheram (…)”. Era guei e me acolheram, respeitaram e amaram (é o ensinamento do Evangelho de Mateus).
Acolhemo-nos aqui um ao outro come Deus nos quis: porque “Como podemos amar Deus – nosso pai – que não vemos se não amamos o nosso irmão que vemos”.
E como podemos experimentar o amor e a paternidade única de Deus se como filhos excluímos outros, nossos irmãos?
O Pai nosso que está nos céus e o seu filho que hoje está entre nós, na humanidade e na fragilidade de uma criatura, nos pedem o único abraço do amor filial que nos faz todos irmãos.
O meu desejo para este Natal é que sempre menos pessoas se sintam sozinhas por causo de uma orientação afetiva natural que não pode significar uma discriminação nas relações humanas. Os votos são é que cada um de vocês compreenda que uma pessoa homossexual é, assim como uma pessoa heterossexual, imagem de Deus.
Não tenho a pretensão de “demonstrar” nada a ninguém no campo da fé. Posso apenas dar testemunho humildemente com a minha vida per cada dom recebido, graças a Deus. “Nele as diferenças são belas porque têm raízes no seu coração de criador, fonte de Vida”.
Que este natal, na nossa Igreja, seja alegria para todos. Ninguém excluído.
Obrigado.
A Homilia di Pasquale Quaranta foi lida pelo autor durante a Missa do Galo na Igreja Católica “Santa Maria Assunta” em Rignano Garganico (Foggia, 25 dicembre 2003). Texto extraído do registro da celebração, transcrito aos cuidados de Serena Corfù e traduzido por Theo para o site www.estoufelizassim.hpg.com.br